quarta-feira, 25 de novembro de 2015


Quanto tempo dura um luto?

O luto normal, cujas emoções decorrem de um rompimento com algo ou alguém que se deseja preservar, envolve uma ampla esfera de sentimentos e comportamentos comuns e mesmo esperados, considerando que o contexto coloca à prova o ser humano em relação à finitude da vida. A perda pode ser caracterizada pelo processo que ocorre após uma morte, enquanto o luto tem sido vislumbrado, por diferentes pesquisadores, como um processo essencialmente em estágios, fases e tarefas. Como área de pesquisa e intervenção, no Brasil, os estudos relacionados ao luto têm sido desenvolvidos recentemente, diferentemente dos países do hemisfério norte e naqueles de língua inglesa. Contudo, fontes de pesquisa específicas da área das perdas entendem o luto, semelhantemente, como uma reação natural diante do rompimento de uma relação significativa, apresentando impacto sobre o indivíduo e a família e, muitas vezes, estendendo-se a longo prazo. Por tais razões, torna-se fundamental avaliar adequadamente o choque sofrido em função da perda, a fim de que sejam identificadas as medidas de intervenção a serem propostas.

Tem-se encontrado, mais recentemente, fundamento na concepção teórica de um novo modelo para a compreensão dos fenômenos decorrentes do processo de luto, com respaldo tanto na pesquisa quanto na prática clínica. O Modelo do Processo Dual questiona aspectos visualizados como ultrapassados nas teorias tradicionais que propõem formas de resolução eficientes frente ao luto. Nele, existem dois tipos de fatores estressores, sendo um orientado para a perda e o outro direcionado à restauração, considerando a existência de um processo dinâmico e regulador do enfrentamento, pela oscilação por meio da qual o enlutado pode às vezes confrontar, às vezes evitar as diferentes tarefas do luto. Deste modo, propõe-se que o enfrentamento adaptativo do luto encontra-se amparado pela confrontação/evitação da perda, concomitante às necessidades de restauração. Isto significa que há momentos em que a expressão do pesar é fundamental diante do grau de estresse gerado pela perda, mas também há períodos em que é preciso existir um movimento direcionado à continuidade da vida e ao reinvestimento nas demais relações.

Cada enlutado apresenta um tempo individual para atravessar a dor da perda. Então, pouco é eficiente considerar a temporalidade no contexto específico de um, dois, três meses, por exemplo, quando o processo de luto se trata, sobretudo, das maneiras como cada enlutado dispõe para enfrentar as perdas da vida durante um tempo fundamentalmente singular. O mais importante é que o enlutado se sinta confortável ou, ao menos, num grau menor de estresse para poder dar os primeiros passos rumo ao desligamento e, neste contexto, poder entrar em contato com os pertences ou fotos da pessoa que sente saudade, e mesmo conseguir ir a lugares que a lembre, de modo a não mobilizar-se como inicialmente. É difícil, portanto, afirmar que um luto se encerra. Afinal, o amor é parte da memória e aqueles a quem se ama serão sempre lembrados dentro de nós. Os enlutados, ao longo de um tempo individual, encontrarão modos de lidar com as emoções e sensações provindas da perda, bem como desenvolverão estratégias para continuar a caminhada da vida. Cada pessoa tem a capacidade de crescer, evoluir da dor, ampliar-se e alargar-se para novas formas de viver, podendo encontrar diferentes estratégias de enfrentamento diante das perdas da vida.

Quando não se pode chorar: O que é um luto não-reconhecido?

A morte, o processo de luto e a educação frente ao morrer ainda permanecem temas distantes para muitos. Não poucas vezes, devido aos sentimentos de confusão, estranheza e insegurança que trazem aos que ficam, tornam-se abordagens carregadas de segredos e tabus, permanecendo encobertas pela angústia do manejo com o desconhecido. Não se pode negar que a relação da sociedade com a morte é marcada por evitação e negação. Diante de tantas vozes que se calam em meio às dores de uma perda, lança-se o convite para tratar sobre o luto não-reconhecido. 

Embora muitos possam não saber o significado desta expressão, o luto não reconhecido socialmente está bastante presente no cotidiano de muitas pessoas, seja por meio de um aborto, uma perda perinatal ou um natimorto, o abandono infantil, uma separação amorosa, amputação, perdas financeiras ou materiais, relações de gênero e as mais diversas representações atribuídas por estas fatalidades de forma individual. O luto não reconhecido refere-se à falta de um espaço concreto e simbólico (quando não se dispõe de um ambiente real e que também possa promover sentido às pessoas acometidas por uma perda) para que haja a expressão das emoções diante das mudanças, a validação do sofrimento e intervenção diante de diferentes circunstâncias de morte. É a impossibilidade de pensar ou agir frente a momentos em que não há um corpo para velar (no caso de perda por morte) ou rituais que permitam a exposição emocional e o compartilhamento das tristezas com uma rede de apoio capaz de amparar. Geralmente, seu conceito pode ser percebido por meio de “regras de luto” que estão a serviço de especificar “quem”, “quando”, “onde”, “como”, “por quanto tempo” e “por quem se deve expressar”.

Há muito o que ser abordado sobre este tema, a fim de ser desmistificado. Tratar de lutos não reconhecidos ao longo da vida significa abrir caminhos para refletir sobre a importância de falar de sentimentos, pensamentos, emoções, condutas, planos, vontades. O luto, quando ignorado ou mesmo não abordado por medo ou receio do que a sociedade pode vir a pensar ou fazer a partir deste evento, pode se tornar um fator de risco importante para o adoecimento físico, psicológico e social de muitas pessoas, à medida que não encontram suporte necessário junto à uma rede de apoio para favorecer o manejo com as condições limitantes e poder seguir com a vida ao longo de um tempo individual.

É importante saber que o luto é um processo normal e mesmo esperado de elaboração de qualquer perda durante o ciclo vital, sendo fundamental para a saúde mental, na medida em que proporciona maneiras de reconstrução de sentido e recursos de adaptação. Além disso, encontrar um espaço para autorizar-se sentir, falar e expressar o pesar pela perda, seja por morte ou outros tipos de rupturas que acontecem na vida é poder encontrar um lugar seguro para aquilo que machuca nos momentos iniciais. Embora muito se tente encobrir, o processo de luto é necessário na medida em que é preciso dar sentido ao que aconteceu na vida de cada pessoa, para a possibilidade de retomada de controle sobre si mesmo, sobre o mundo e as demais relações afetivas. Negligenciar esta questão pode levar a riscos para a saúde pública em diferentes níveis.

O psicólogo como cuidador da alma

O cuidado na relação psicólogo x paciente é essencial. Cuidar se trata, especialmente, de uma proposta de amor. A vontade de ajudar vem de dentro, da empatia e compaixão pelo outro, do compartilhar dos afetos e do contágio emocional que acontece durante um encontro. Cuidar significa importar-se com quem se encontra imerso num momento em que a dor parece ser maior que a vontade de seguir. Ao profissional da psicologia, cabe sensibilidade para a compreensão da diversidade humana, além da atenção e coragem para a possibilidade de intervir nos porões mais obscuros e, muitas vezes, sombrios da alma. O cuidado essencial, por parte do psicólogo, refere-se ao desenlaçar dos nós da mente daqueles que percorrem pelas controvérsias da existência. Cuidar, portanto, significa mais que um ato, mas uma conduta que envolve momentos de atenção, zelo e desvelo, representando modos de ser e fazer relacionados à preocupação, responsabilização e ao envolvimento afetivo com o outro.

Cuidar representa, sobretudo, a oportunidade de ampliar caminhos para que o paciente siga, a seu tempo, confiante numa estrutura saudável e segura que pode ser conquistada pelas suas próprias capacidades, aprimoradas pela mediação do cuidador psicólogo. É o cuidado prestado pelo profissional da psicologia que permite que o paciente alcance o seu próprio desenvolvimento e estabeleça o melhor trajeto para atravessar as mudanças da vida. Assim, o acompanhamento psicológico estende a busca de sentidos e significados por meio de um convite para que o paciente se aproxime de si mesmo conheça, sem receios, tanto a inconstância arenosa quanto a consistência sólida dos terrenos de sua história. 

Atuar na perspectiva de cuidador em psicologia frente às transições da vida significa estar junto, próximo e disponível a compreender o enredo da existência; tolerar as limitações ou frustrações diárias e promover suporte e apoio frente aos movimentos de mudança de cada paciente cuidado, reconhecendo seus diferentes momentos. Trata-se de uma espécie de relação em que o cuidador permite-se preencher pela nostalgia de quem é cuidado, numa transição entre os modos de ser, pensar e fazer. É, principalmente, ter a possibilidade de exercitar as diferentes formas de amar numa dimensão para além do reducionismo de uma técnica que apenas esteja fundamentada na prática, mas tampouco deixar de considerá-la uma questão importante frente à atuação em psicologia e atenção em saúde física e mental. Já dizia Jung, psiquiatra e psicoterapeuta suíço, que por mais que se conheça todas as teorias e se domine todas as técnicas, ao tocar uma alma humana, é preciso ser essencialmente outra alma humana. Cuidar se refere ao acolhimento que possibilita o vínculo seguro, semelhante a um abraço capaz de unir todos os fragmentos. E, embora a dor não seja passível de ser sentida em sua integridade, pode ser transformada em cura, com o tempo, quando da possibilidade de ser reconhecida, expressa e compartilhada num trabalho conjunto entre psicólogo x paciente. 

Por tantas razões cabe ao psicólogo, enquanto cuidador, estender a sua mão. Todavia, a mesma mão que é estendida e acalenta também pode ser a mão que solicita ajuda e se distende para buscá-la. Convém, àquele que cuida, “tirar os seus sapatos” para permitir-se sentir a diversidade de densidades e levezas frente ao extraordinário desafio de ser humano; e “tornar a calçá-los” depois de se deixar mergulhar em tamanha profundeza. Assim, segue-se todo o aprendizado de uma equipe que é construída durante o processo de uma psicoterapia (o cuidador psicólogo e a pessoa cuidada) e cujo conhecimento é possível frente a cada encontro, numa experiência que nunca se finda em sua mais nobre riqueza.

Consulte um psicólogo e permita-se conhecer-se melhor nas suas dificuldades e potencialidades. Para cuidar bem do outro, antes é preciso cuidar bem de si mesmo. Trata-se de integridade. Que o cuidar seja por inteiro, com aconchego de verdade. Cuidar é, sobretudo, uma proposta de amor... consigo e com o outro!

O luto pela separação nas relações amorosas

Uma vez que o amor é um vínculo e que a característica mais marcante deste está na resistência às separações, é possível supor que a intolerância ao rompimento é considerada uma experiência de luto. tratando deste contexto, é importante ponderar que embora o sentimento de amor seja vislumbrado como consequência da formação de uma relação de apego, um relacionamento bem sucedido pode ser aquele no qual a separação ou o afastamento são passíveis de ser toleráveis, em razão da existência da confiança de que o outro retornará quando necessário. Na separação amorosa, as emoções emergem da ruptura da estabilidade, da desconstrução dos planos, da fragmentação da dupla para a individuação. Por tais razões, é preciso considerar a dor provinda de uma série de mudanças.

A experiência do rompimento de uma relação de amor é, de fato, intensa e dolorosa. Abrange questões que seguem desde a concretude dos significados como, por exemplo, tirar uma aliança ou as fotos dos portarretratos espalhados pela casa, como também parte para a representatividade do elo antes formado que, no momento da separação, fica fragmentado devido ao “aborto” de uma espécie de cordão que formava o ideal, o par – aquilo que significava conjunto.

As desilusões amorosas geram aflição, causam dor, angústia e sofrimento, em razão de estarem relacionadas às perdas reais e simbólicas de tudo o que antes era e não mais é – ou passa a ser de uma forma diferente. O luto devido à separação de duas pessoas que se uniram pelo amor emerge em virtude da necessidade de reconhecer a perda de um objeto que, até então, poderia representar segurança e estabilidade. Logo, o pesar provindo pelo rompimento constitui uma experiência de luto pelo vínculo formado – este que permite que se possa estabelecer relações afetivas próximas e íntimas com os pares – e modificado pela opção da individualidade.

Diante das desconstruções e mudanças que as perdas impõem, é fundamental buscar auxílio, seja de uma rede de apoio composta por familiares, amigos ou demais pessoas próximas, bem como ajuda profissional. Utilizar-se dos recursos disponíveis promove meios para reflexão e também para a reconstrução da vida de uma forma diferente ao longo de um tempo que é individual. É preciso, sobretudo, trabalhar com as emoções que surgem devido à separação, levando em conta o que a relação representava/representa, os vínculos estendidos, a construção de estratégias seguras e estáveis diante de uma crise e a reconstrução da vida partindo de uma nova perspectiva de ampliar-se para o reinvestimento em si e no outro, não desconsiderando as lembranças do passado, que um dia foram ou continuam sendo importantes.

O luto pela passagem do tempo

A morte é um fenômeno universal e constitui elemento integrante do desenvolvimento humano desde a sua mais tenra idade. Ao refletir a respeito da sua existência, o homem não pode mascarar, quanto menos omitir a transitoriedade da vida como etapa constituinte do ciclo vital. Durante este percurso, ele se depara com questões que são constantemente reformuladas a respeito da contingência da vida, seu início e fim e o transcorrer da sua história. Esta circunstância faz com que o ser humano pense acerca do seu existir, bem como da fragilidade pela qual ele se compõe.

Para alguns, a morte é o fim de todas as coisas. Para outros, transformação. Há quem diga que a morte constitui uma passagem para outro plano da existência. Também há quem a ignore ou se resguarde das reflexões acerca deste evento. Frente a uma época em que reconhecer a finitude humana torna-se desafiador ao homem, diferentes concepções acabam sendo produzidas, pela sociedade, na tentativa de dar conta das angústias que, porventura, poderiam desconstruir a sensação de estabilidade e controle sobre a passagem do tempo.

O tempo, uma noção inerente ao ser humano – que o permite reconhecer e ordenar a ocorrência dos eventos diários de acordo com a percepção dos sentidos – torna-se uma questão semelhantemente angustiante quando pensado como percurso com início, meio e fim. O transcorrer de um ciclo implica no transitar de um conjunto de momentos que, embora necessários frente à consolidação de uma vida, impõe, a cada novo dia, a proximidade com questões relativas à finitude. Isto porque a trajetória do tempo está, sobretudo, associada às mudanças; e estas demandam uma série de “re”: readaptações, reajustes, reordenações, recomposições, reconciliações e, especialmente, recomeços. A passagem do tempo clama pela diferença, pela novidade; e o novo gera desconforto, porque implica metamorfoses que desacomodam.

É importante recordar que o luto não está apenas associado ao processo natural decorrente da morte propriamente, mas a todas as grandes perdas da vida que geram algum grau de estresse e desconforto – e aí pode-se pensar em afastamentos, perda das capacidades física ou psicológica, perda de um ambiente conhecido como cidade, estado ou país, perdas materiais ou que envolvem algum vínculo afetivo ou mesmo de algo que representa importância e que se deseja preservar, além das demais experiências que envolvem oscilações e requerem uma nova organização interna e externa do indivíduo.

O ser humano vive permeado por lutos desde o início da vida. Afinal, o bebê, logo de seu nascimento, necessita perder o quentinho e protetor útero de sua mãe para poder se desenvolver, ampliar-se e apreender o mundo a sua volta. Concomitante a este evento, num processo necessário, a mãe também se desprende de parte de si mesma – o bebê – para poder cuidar de um ser diferente num espaço também separado. E este bebê que, desde o início, precisa se ajustar a um novo e desconhecido ambiente, estará continuamente adaptando-se e reconstruindo modos de ser e fazer para enquadrar-se no ciclo das aprendizagens; da conquista de novos esquemas e espaços a partir de um crescimento e amadurecimento constantes; das mudanças físicas e psíquicas; da busca por novos ideais, planos e, eventualmente, frustrações; novos estilos, sabores, cores e amores. Estar aberto para as novidades do mundo também significa arriscar-se às perdas decorrentes do que se tem que mudar. Afinal, nem tudo serve para sempre; e isto não se trata de inutilidade, mas de necessidades que vão sendo modificadas ao longo do existir.

Experimentar sentimentos ligados a uma perda, decorrentes das metamorfoses da vida, também constitui parte natural e esperada de um processo de transformação e sabedoria que todo mundo percorre. Superar as mudanças requer antes atravessá-las e, para atravessá-las, é preciso estar ciente das perdas necessárias.

O luto pela perda de órgãos e membros

Considera-se que as razões mais comuns para a amputação de membros ou a retirada de órgãos estão voltadas a tumores ou traumas derivados de acidentes. Nestes casos, o foco da atenção está comumente direcionado ao tratamento da patologia, a fim de salvar a vida do paciente. Tais procedimentos acabam sendo sugeridos de forma secundária, em caso de surgimento de eventuais complicações, tendo como finalidade primordial o controle ou cura da enfermidade ou trauma. Por tratar-se de um procedimento delicado, costuma-se esgotar, em primeira mão, as demais possibilidades antes da decisão final de prosseguir com o diagnóstico – tudo com o objetivo de promover maior bem-estar à pessoa e permitir-lhe a continuidade da vida.

Geralmente, as amputações são vistas como condutas agressivas de mutilação e desestruturação extremas para os pacientes e seus familiares, por tratar-se da desorganização de uma estabilidade que coloca-os frente ao temor pela doença e, muitas vezes, da própria morte. O que acontece é que a retirada de órgãos ou membros traz sempre o simbolismo relacionado à incapacidade, à impossibilidade, às mudanças e readaptações. Deparar-se com a perda de parte de si faz alusão ao receio quanto ao futuro. Naturalmente, este processo apresenta significados diferentes para cada pessoa, tendo em vista que podem variar de acordo com a história pessoal, em que momento decorre do ciclo vital e a razão pela qual este procedimento se faz importante. Por tantas razões que dizem respeito ao que a amputação representa na vida da pessoa que atravessa esta experiência é que se torna fundamental poder falar sobre as transformações subsequentes. Trata-se da vivência reconhecida e validada como mudança importante na vida, a fim de que possa ser elaborada ao longo de um tempo individual pela pessoa que a experimenta.

Neste momento, é essencial contar com o auxílio e amparo dos familiares e demais pessoas queridas, bem como da equipe multiprofissional em que, juntos, formam uma rede de apoio segura e capaz de favorecer o processo de recuperação, facilitando a reabilitação e reinserção do paciente em sociedade em momentos posteriores. Afinal, estar-se-á falando de uma pessoa inteira, vista como um todo. A perda de um membro ou a retirada de um órgão não diz respeito à integralidade do ser humano, mas a uma parte de si que pode se regenerar quando vislumbrada em questão de sentido e significados. Na medida em que se torna possível enxergar o paciente de forma global, estar-se-á valorizando a vida como um todo, e não apenas uma etapa dela. O luto pela perda de membros ou órgãos é importante, pois constitui um dos capítulos do livro da existência, mas o sentido do conteúdo apenas se apresenta quando é possível “ler” o material por inteiro. Afinal, a obra da vida é composta pelo livro completo em sua edição mais atualizada.

Finados: A dimensão de tempo e espaço no elo contínuo do amor

Diferentes formas de recordar as pessoas amadas que partiram têm servido como recurso importante para a elaboração do complexo processo do luto. Trata-se também do dia de Finados. Por meio da composição de metáforas, simbologias e ações de forma dramática e altamente condensada, os rituais podem transcender o sofrimento perpetuado pela finitude do ser humano, possibilitando a consolidação de uma aliança entre passado e futuro. Tais práticas assinalam a perda de um membro; autenticam a existência humana daquele que partiu, assim como o seu processo de viver; favorecem as expressões de sofrimento de forma conveniente aos valores da cultura; proferem simbolicamente sobre o sentido da morte e da vida e designam um caminho capaz de conferir ressignificação à perda, ao mesmo tempo em que possibilitam a continuidade para os que permanecem em vida.

As regras e rituais a respeito do marco final da vida humana e do comportamento dos enlutados frente à perda fazem-se presentes em todas as sociedades, mesmo nas mais primitivas. Datas utilizadas para lembrar das pessoas falecidas e prestar-lhes homenagens denotam o não-abandono dos entes queridos pelos vivos e implicam na crença da sua sobrevivência num elo de ligação que nunca morre na ausência. Momentos cultivados para tais fins são importantes, pois asseguram a expressão das emoções no que tange à manifestação do luto e permitem a demonstração inicial da dor e da perda em um contexto construído para promover conexão interpessoal. É possível pensar que há uma universalidade para atender a demanda psicológica e social de enquadrar e prever a perda, na medida em que o evento da morte envolve um grau significativo de sofrimento, por tratar-se do rompimento de um laço afetivo consolidado entre seres e que implica na reflexão das incertezas e inconstâncias da vida

A ritualização das perdas por meio de datas que recordam as pessoas amadas constitui um importante movimento de despedida familiar e social mas, sobretudo, de lembranças e expressão de saudade, na possibilidade de um período para a vivência do luto de forma segura, em razão de sua prática ser limitada quanto ao tempo e espaço, e do elo contínuo pelo amor que nunca tem fim. Os rituais de luto existem para estabelecer uma conexão significativa entre quem foi e quem está. Permanecem sendo vitais e autênticos aos indivíduos, à medida que estão inseridos em tradições passadas, mas podem ser recriados de acordo com as necessidades do presente. Logo, é possível, a cada um, construir e/ou repensar nas melhores formas de recordar, de modo que a dor seja ressignificada e que os novos sentidos tragam aconchego para a possibilidade de continuar a vida de forma segura e autônoma.

Caminhos de reconstrução da fé diante do luto

A finitude humana emerge como aspecto essencial e compõe-se, sobretudo, por questões internas que levam a uma existência temporal. Trata-se da presença efêmera do homem, em vida, que está continuamente marcada por um horizonte limitado pelas dimensões espaço x tempo. À medida que se experimenta a vida, a morte também é contemplada como um caminho; e esta trajetória tem a finalidade de atribuir sentido à existência. Afinal, vida e morte lançam-se, desde o princípio, à intensidade do amor e, a datar desta imensidão de sentimentos, é possível dizer que a primeira envia imensuráveis “presentes” à segunda, que os guarda para sempre na imortalidade. Estes presentes podem ser vislumbrados como as chamas daqueles que se apagam em terra, mas que resplandecem junto de um Deus maior no calor da eternidade.

Refletir e deparar-se com o entardecer do viver não significa deixar-se absorver pela obscuridade do morrer. Sua representação mais íntegra está na Sacralidade da vida e na circunstância da morte como condição de mudança e renovação. O universo é eterno e o homem é chamado a permanecer para sempre um fragmento dele, não cessando jamais de existir no íntimo de um espaço capaz de comportar uma estabilidade absoluta.

Ainda há muito receio ao pensar sobre a morte, uma vez que nomeá-la ou reconhecê-la como evento real e inevitável à vida parece ameaçar ou comprometer o sentido atribuído à totalidade da existência. Diante do morrer, o homem concentra-se fundamentalmente entre a possibilidade de salvar-se ou perder-se por inteiro. Isto, muitas vezes, o impede de construir sentido a suas experiências. Por tais razões, diferentes perspectivas surgem com a finalidade de sustentar de forma digna o significado atribuído à finitude.

Desde a história, a humanidade conhece e dispõe de modos diferentes de ver, viver e sentir a morte. Esta circunstância está construída sob uma dimensão que não carrega significado próprio, podendo assumir diversos sentidos e sendo, cada um deles, justificados. As variações atribuídas ao significado da morte dependem, em suas formas, do contexto, da cultura, dos valores e das concepções de vida de cada ser humano. Logo, a importância outorgada à morte está ligada às noções e perspectivas de vida de cada civilização ao longo da história e do tempo e, por tal razão, deve ser reconhecida e respeitada. 

Diante de uma diversidade de teorias proposta para explicar o por quê a morte acontece, qual o sentido dessa experiência, se há ou não algo além da vida e se a fé pode auxiliar, o ser humano vê-se frente à uma profunda revisão a despeito de crenças e valores que construiu ao longo de sua história, iniciando um importante movimento em que aquilo que não mais o sustenta é abandonado para ceder espaço ao que é capaz de acalmar suas angústias e inquietações ante o desconhecido. Portanto, é natural que muitos constructos internos – incluso a fé – diante da dor do luto, atravessem intensos momentos de negação, reavaliação e reconstrução.

Em tempos em que as ciências veem-se limitadas quanto ao campo de investigação e busca por verdades sobre as questões essenciais da vida, as religiões, mesmo com suas controvérsias, surgem como orientadoras dos percursos da alma para o homem. Do ponto de vista teológico, a partir de um conjunto de crenças ou dogmas, a perspectiva religiosa auxilia na elaboração e enfrentamento do luto, revelando-se um influente recurso capaz de facilitar o processo de adaptação e reconstrução de sentido para a vida diante de uma perda dolorosa. A fé não apenas funciona como âncora de sustentação, mas também como ferramenta capaz de amenizar as sensações de insuficiência e abandono que a perda pode registrar na vida do enlutado ao longo do tempo. Além disso, crer em algo Sagrado pode ser útil para o resgate da confiança, pois representa uma possibilidade de endereçar a morte de forma segura para sair do vazio e dar continuidade à vida.

Tomar consciência, aos poucos, do que fora rompido na trama da vida é fundamental para e reorganização de tarefas, responsabilidades e na resolução de conflitos. A fé, tanto abalada nos primeiros momentos do luto, transforma-se em caminhos de esperança, proporcionando sentido à dor e à vida. Esta espécie de “renascimento” diante do luto é que assegura meios de fortalecimento para que as demais perdas sejam atravessadas. Este é o único destino possível para um luto: sentir, questionar, crescer e evoluir da adversidade. A construção de significados para a finitude humana autoriza valor à existência e naturalidade à morte, permitindo que o homem siga na esperança do amparo e amadurecimento, confortado pela fé em suas diferentes formas de acolhida.

Aconselhamento psicológico em situações de luto

A abordagem utilizada no aconselhamento psicológico em situações de luto constitui um modelo de intervenção psicológica essencial no auxílio aos enlutados, pois facilita a passagem pelo processo de luto por meio manejo com as perdas. Visa o estabelecimento de condições de vida saudáveis ao enlutado, ao considerar seus próprios recursos e estratégias de enfrentamento da dor, além da retomada de sua rede de apoio familiar e social. Busca o reconhecimento da nova realidade para a readaptação da vida e conforto diante dos diferentes momentos do luto num período de tempo benéfico ao enlutado. Também assume caráter preventivo frente à possibilidade de complicações maiores advindas desta experiência. Trata-se, sobretudo, de amparar e impulsionar o enlutado para caminhos seguros, a fim de que seja possível reinvestir suas emoções na vida e no viver, mesmo na ausência da pessoa perdida.

Esta abordagem pode ser vislumbrada como uma ferramenta para intervenções tradicionais que podem não funcionar com algumas pessoas ou não estarem disponíveis para outras, dado que a psicologia constitui uma ampla área interventiva. O aconselhamento funciona como (1) reforçador para a concretização da perda, ou seja, a realidade da sua ocorrência; (2) um suporte ao enlutado no que se refere ao sofrimento emocional e às eventuais condutas provindas deste; (3) facilitador no atravessamento dos desafios impostos pelos reajustas pós-perda; e (4) promotor das reflexões do enlutado, a fim de que possam ser encontradas maneiras saudáveis de manter o vínculo com a pessoa querida e, ao mesmo tempo, sentir-se confortável para reinvestir no processo de viver.

Pode-se dizer que há três filosofias de aconselhamento frente às situações de luto. A primeira refere que esta modalidade de serviço pode ser oferecida a todos os que sofrem devido às perdas por morte, em razão de ser um evento traumático aos envolvidos. A segunda diz respeito à necessidade de ajuda por parte dos enlutados após o surgimento de dificuldades maiores. Em outras palavras, a busca pelo aconselhamento psicológico acontece, geralmente, após um longo período de estresse que se torna irreversível ao enlutado. A terceira filosofia está ancorada num modelo preventivo de saúde mental. Neste sentido, o profissional pode atuar de forma a prevenir precocemente eventuais adaptações precárias à perda e dificuldades posteriores. Para além de lutos e perdas, é importante procurar auxílio sempre que as circunstâncias da vida impõem mudanças que, de algum modo, desestabilizam a sensação de controle e descontroem as seguranças estabelecidas, ocasionando algum grau de desconforto ou angústia.

Diante da perda sofrida, o enlutado precisa de um suporte que lhe possibilite falar sobre o seu pesar e a experiência vivenciada pela morte da pessoa amada, sobre como foi o funeral, as lembranças deste evento e as memórias em vida. O profissional que acolhe esta demanda deve ser continente e permitir que o enlutado sinta que suas expressões de dor estejam sendo escutadas e aceitas. Além disso, a pessoa que busca por atendimento psicológico frente a estes desafios precisa saber que algum grau de culpa e raiva se fazem naturalmente presentes, e que há a possibilidade de ser conversado sobre isso com tranquilidade. Do mesmo modo, é importante experimentar-se diante do primeiro aniversário de morte com acompanhamento; reconhecer, compreender e atender suas necessidades diante da disponibilidade do profissional. O aconselhamento psicológico difere de um “conselho” quando pensado no senso comum, pois está livre de julgamentos relacionados à experiência individual, mas são trabalhadas questões particulares por meio de uma compreensão e ressignificação da dor. Ao profissional, cabe permitir que o enlutado finalize o processo de luto por meio da readaptação do mundo presumido, da apropriação de novos papeis com uma identidade diferente da anterior e que lhe seja possível ter quaisquer pontos de conexão com a vida.

O aconselhamento psicológico em situações de luto é fundamental no que tange ao asseguramento de novos caminhos para que o enlutado possa fechar questões que, eventualmente, ficaram inacabadas com a pessoa amada e finalmente se sinta preparado para dizer adeus à dor e dar boas vindas à saudade e às lembranças. Assim também, que possa aumentar sua percepção quanto à nova realidade e, a partir daí, potencializar capacidades de enfrentamento do seu luto, possibilitando a expressão e administração das emoções e afetos. Por meio de uma nova organização frente à perda, o enlutado pode construir maneiras de ajustar-se às diferentes etapas da vida, atravessando os obstáculos impostos; bem como estimular e autorizar a si mesmo a sentir-se confortável para tornar a reinvestir no viver e em relacionamentos posteriores.

A saudade, no luto, é o amor que permanece

Embora os assuntos ligados à morte e ao processo de luto daqueles que sofrem por uma perda ainda sejam vistos como tabu – talvez por tratar-se de uma experiência-limite a qual gera desconforto e profundos sentimentos de angústia e pesar – a questão da finitude acompanha o ser humano desde o primórdio dos tempos. Morre-se um pouco a cada dia logo da oportunidade de nascer. Assim como há vivências de luto provindas de perdas por morte ou mesmo frente à necessidade de mudanças. A morte constitui parte integrante e essencial da vida, a partir dos ideais x frustrações; do planejamento x imprevisibilidade; do imaginário x real; de tudo aquilo que, um dia, foi construído, em contraposição ao que foi devastado; dos encontros e despedidas de cada história.

Em quaisquer situações, é possível dizer que não há nada mais doloroso para a alma humana do que perder alguém amado ou alguma coisa que se deseja preservar. A experiência da perda é potencialmente danosa para quem a vivencia, pois as adversidades relacionadas aos desligamentos do ciclo vital influenciam diretamente na saúde física e mental. Quando da perda por morte, por exemplo, finda-se, sobretudo, a possibilidade de um futuro junto à pessoa que partiu – futuro este recheado de expectativas, oportunidades, caminhos, alegrias e realizações. É natural, portanto, que o enlutado se sinta perdido ou com a sensação de “falta” – a impressão demarcada pelo “vazio” da experiência. A morte de quem é estimado chega carregada de sentimentos de confusão e estranheza, intercalados ao entorpecimento, à tristeza, raiva, às dores (que, às vezes, acabam se tornando físicas), ao alívio, à culpa, revolta, desesperança e, sobretudo, vem permeada por questionamentos.

O sofrimento existente no processo de luto é genuíno e esperado em virtude de tratar-se de uma relação de amor em que houve investimento afetivo de ambas as partes ao longo da vida. Apenas há dor na ausência, porque houve amor na presença. É importante recordar, porém, que o amor também reside no descanso desta dor e na “recarga” de energias para a possibilidade de reinvestir na vida. Amar também significa repouso para cicatrizar as feridas da alma. O afeto mora nas lembranças, nos momentos felizes, em tudo aquilo que a pessoa querida representou enquanto em vida e, sobretudo, na vontade que ficou, chamada saudade. A saudade, no luto, é o amor que permanece. Logo, contrapor-se à realidade da morte na tentativa de viver como se mudanças não fossem necessárias, “esquecer-se” do ente querido ou livrar-se subitamente de tudo o que lhe pertenceu, isolar-se ou evitar conversar sobre os sentimentos e expressar emoções, manter o tema da morte sob segredo, muitas vezes, tornam-se fatores que impedem a resolução do luto num processo saudável de elaboração.

Embora a ausência da pessoa amada, em vida, seja razão de tamanha dor por parte de quem fica, a morte é peça integrante e essencial do teatro da existência. Diante de uma experiência de perda, é preciso ajustar-se às mudanças, encontrando novas formas de “conectar-se” com aquele que partiu. Esta espécie de conexão pode surgir por meio de maneiras que o próprio enlutado encontra, ao longo do tempo, para lidar com a dor do luto e que ofereçam conforto e segurança para dar continuidade e sentido à vida. Enquanto as tentativas de “distanciar-se” do falecido acabam, muitas vezes, intensificando a dor e o pesar por não constituírem parte do processo natural do luto, permitir-se aproximar-se das emoções e reconhecer as metamorfoses da vida possibilita novas formas de reconstrução. A saudade que, no início, faz doer é a saudade que, ao longo do tempo, transforma-se em um ponto de ligação com a vida, pois fala do amor que nunca morre, mas que se transforma numa aprendizagem eterna frente à nova necessidade de amar em separado.

Enquanto a dor e o sofrimento estão associados à ausência, as lembranças tornam-se possibilidades de unir-se à pessoa querida por meio de um amor que se modifica, ao longo do tempo, numa nova forma de cuidado. Neste contexto, cabe dizer que na medida em que o enlutado permite a si mesmo viver momentos de vitalidade e entusiasmo, mesmo intercalados por períodos de tristeza, este também estende o seu cuidado à pessoa ausente em vida, justamente por se tratar de uma ternura e um bem-querer que permanecem vivos nas chamas da lembrança, saudade e esperança.


A dor da perda como o custo do compromisso de amar

Muitos acreditam que o amor se constitui na mais intensa fonte de prazer na vida, ao passo que a perda é compreendida como a mais profunda fonte de dor e sofrimento. A construção de relações íntimas e intensas entre os seres humanos, mesmo diante da existência de limites e desafios, permite pensar que é transitoriedade da vida que enaltece o amor e compõe fundamentalmente o compromisso, possibilitando a consolidação de um laço emocional capaz de vincular duas ou mais pessoas durante uma longa trajetória de vida.

Logo, é possível dizer que a resistência humana frente às rupturas do ciclo da existência encontra-se conectada à natureza das alianças afetivas anteriormente firmadas, à medida que, uma vez estabelecidos, estes elos dificilmente poderão ser afrouxados. Entende-se também que quanto maior o potencial para a perda, tanto mais acentuada é a força do vínculo. Por tantas razões, a dor da perda refere-se ao custo do compromisso de amar.

O luto, caracterizado como um conjunto de reações normais e esperadas diante do rompimento de uma relação de amor, envolve uma série de mudanças psicológicas que precisam de atenção e cuidados. Logo, a dor da perda está associada à dor das mudanças, na medida em que, partir da circunstância da ausência da pessoa querida, o enlutado precisará repensar os conceitos sobre o mundo e a vida, sentirá a discrepância entre a realidade e os seus constructos internos e reorganizará as maneiras de viver depois da perda. Contudo, ainda que as separações causadas pela ausência, em vida, da pessoa amada sejam razão de tamanha dor, o processo inerente à sua elaboração, ao longo da vida, é fundamental para a saúde mental, ao passo que promove a reconstrução dos recursos psíquicos e readaptação frente às mudanças.

A psicologia, neste sentido, pode contribuir de forma importante na mediação entre novas possibilidades de reconstrução da vida em meio à dor do luto e a ressignificação desta intensa experiência numa perspectiva de conexão do enlutado com a pessoa amada por meio das lembranças e da saudade. O psicólogo promove um espaço seguro para que o enlutado possa reconhecer sua dor como parte natural do processo de luto; permita-se sentir as emoções de confusão, tristeza, raiva, culpa, medo, assim como as sensações de vazio e perda de sentido na vida e, ao longo do seu tempo, possa encontrar caminhos para voltar a reinvestir nas relações afetivas e no viver. Afinal, a única coisa tão inevitável quanto a morte é a vida. E, para viver de verdade, é preciso pensar e falar sobre as mudanças impostas pela morte.

Conversar sobre a(s) sua(s) perda(s) com um psicólogo refere-se a um ato de coragem. E cuidar do seu luto trata-se, sobretudo, de uma proposta de amor... um amor que permanece vivo na lembrança e saudade de uma relação que nunca morre na ausência e esquecimento!

A desafiadora tarefa de tratar de morte e luto com crianças

Ao tratar sobre o processo decorrente de um luto, é preciso estender o caminho que, muitas vezes, encontra-se permeado apenas pela morte e o morrer propriamente. Tanto crianças quanto adultos, quando frente à uma experiência de perda (seja por doença de uma pessoa próxima ou de si mesmo, separação, abandono e/ou situações afins), podem experimentar uma gama de sentimentos intensos e dolorosos que são característicos do processo de luto. Em função desta diversidade de emoções, é exigido ao ser humano um repertório de recursos de enfrentamento construído ao longo do ciclo vital, desenvolvido por meio do contexto de base, das redes de apoio e demais vivências. Quando pensado na criança, é importante considerar o entendimento a respeito das experiências vinculares de formação e rompimento com base na faixa etária. Isto porque a compreensão sobre a irreversibilidade da morte e o grau de estresse gerado por determinadas circunstâncias de mudanças estão associadas ao período do desenvolvimento infantil. É possível dizer que, algumas vezes, a evocação das inúmeras emoções provindas de perdas pode caracterizar um período traumático, justamente por conta da criança não possuir os recursos disponíveis de enfrentamento da mesma forma como os adultos.

A vivência de um luto, muitas vezes, gera sensação de insegurança e abandono, em que emergem sentimentos de raiva, culpa, medo de outras perdas, fantasias associadas à responsabilidade pelo ocorrido. É preciso favorecer a elaboração de um processo para a possibilidade de ressignificar este luto e, então, oportunizar uma nova integração à vida. A elaboração das perdas é essencial para o desenvolvimento saudável e funcional da criança, uma vez que atua como fator de proteção diante do atravessamento por perdas futuras em diferentes níveis. Logo, falar sobre morte e explicar a natureza do luto contribui para o crescimento infantil em larga escala. Por outro lado, existem fatores de risco ligados à não elaboração de uma perda, impossibilitando o desenvolvimento emocional, cognitivo e relacional na infância e, posteriormente, na vida adulta.

Tratar do luto com a criança e trabalhar sobre as maneiras como cada uma constrói a realidade de mundo, estando ciente de sua mortalidade e também daqueles a quem ela ama remete o adulto às próprias perdas. O luto infantil pode suscitar o encontro com as próprias perdas, na percepção adulta. A criança que vivencia uma perda e sofre a seu modo em decorrência desta experiência muito ensina o adulto a ouvir e ver, atentar-se e perceber, pois é necessário aproximar-se dela para poder apreender o que está querendo ser dito com aquilo que está sendo exposto de diferentes maneiras. A criança precisa, portanto, ser entendida a tratada como um ser enlutado semelhantemente ao adulto, e não como “apenas” uma criança “que não sabe ou tampouco entende o que está acontecendo”. Atitudes como esta encobrem, na verdade, a dificuldade do adulto em falar sobre a morte e mesmo sobre a vida. E não importa a idade, nem a quantidade de lutos que venham ser atravessados ao longo da trajetória humana, é fundamental tratar disso de acordo com aquilo que é possível ser compreendido a cada momento do desenvolvimento.

De fato, é difícil falar com a criança sobre algo que nem o adulto sabe exatamente como explicar a si mesmo. A morte é a certeza da vida, mas sua contradição se torna de complexa compreensão. Por tal razão, parece sempre mais adequado resguardar a criança das questões doloridas para que não precise passar por isso tão cedo. Contudo, é certo que mesmo na primeira infância (durante o período inicial da vida), a criança é capaz de perceber mudanças e rearranjos. Embora, muitas vezes, se tente esconder esta questão, a morte está mais próxima do que se costuma pensar: nos livros infantis, filmes, na mídia, nas conversas paralelas entre as pessoas. Não há receita pronta para fazer tudo certo, mas existem pontos importantes a serem levados em conta na hora de um adulto contar à criança sobre a morte, o durante, o depois, considerando também o seu próprio luto.

É importante usar uma linguagem simples à criança, com termos claros e objetivos. Metáforas como “foi para o céu”, “está dormindo” ou “virou estrelinha” apenas causam confusão e fazem surgir fantasias e dúvidas maiores. Geralmente, o que ocorre é que se antecipa a angústia da criança a partir da própria angústia do adulto. Por isso, é preciso dar tempo para que haja compreensão e se atenda aos questionamentos da criança. Do mesmo modo, é essencial respeitar seus limites e capacidades, sobretudo em ambientes carregados de emoções, como no caso de velórios. Nestas circunstâncias, cabe prover suporte, continência e amparo, além de explicar sobre como será este “durante” – permitindo que ela decida se quer ou não se fazer presente neste momento. Posteriormente, a criança também se deparará com sentimentos e reações de luto. Poderão surgir sintomas ou reações como agressividade, tristeza, apatia, raiva e dúvidas sobre onde a pessoa que partiu está. É importante autorizar a expressão destas emoções e fazer sempre o melhor dentro do possível de cada momento, mesmo na admissão de que a morte faz parte de um mistério da vida e ninguém sabe exatamente o que acontece depois deste evento ou fazendo uso das crenças familiares e reconhecendo a existência de outras, a fim de exercitar a diversidade.

É preciso aprender, enquanto adultos, que está tudo bem se houver períodos para chorar ou sorrir, desmoronar ou construir; e que isso pode ser passado tranquilamente para as crianças, pois é isto tudo e mais um tanto que permite caminhar por um processo de transformação e cura. É importante também que os pais, professores e demais profissionais que trabalham com a criança conheçam sobre o processo de luto na infância e a compreensão construída sobre morte nas diferentes fases do desenvolvimento cognitivo e emocional, a fim de que possam buscar ajuda especializada dada a necessidade.