quarta-feira, 25 de novembro de 2015

O psicólogo como cuidador da alma

O cuidado na relação psicólogo x paciente é essencial. Cuidar se trata, especialmente, de uma proposta de amor. A vontade de ajudar vem de dentro, da empatia e compaixão pelo outro, do compartilhar dos afetos e do contágio emocional que acontece durante um encontro. Cuidar significa importar-se com quem se encontra imerso num momento em que a dor parece ser maior que a vontade de seguir. Ao profissional da psicologia, cabe sensibilidade para a compreensão da diversidade humana, além da atenção e coragem para a possibilidade de intervir nos porões mais obscuros e, muitas vezes, sombrios da alma. O cuidado essencial, por parte do psicólogo, refere-se ao desenlaçar dos nós da mente daqueles que percorrem pelas controvérsias da existência. Cuidar, portanto, significa mais que um ato, mas uma conduta que envolve momentos de atenção, zelo e desvelo, representando modos de ser e fazer relacionados à preocupação, responsabilização e ao envolvimento afetivo com o outro.

Cuidar representa, sobretudo, a oportunidade de ampliar caminhos para que o paciente siga, a seu tempo, confiante numa estrutura saudável e segura que pode ser conquistada pelas suas próprias capacidades, aprimoradas pela mediação do cuidador psicólogo. É o cuidado prestado pelo profissional da psicologia que permite que o paciente alcance o seu próprio desenvolvimento e estabeleça o melhor trajeto para atravessar as mudanças da vida. Assim, o acompanhamento psicológico estende a busca de sentidos e significados por meio de um convite para que o paciente se aproxime de si mesmo conheça, sem receios, tanto a inconstância arenosa quanto a consistência sólida dos terrenos de sua história. 

Atuar na perspectiva de cuidador em psicologia frente às transições da vida significa estar junto, próximo e disponível a compreender o enredo da existência; tolerar as limitações ou frustrações diárias e promover suporte e apoio frente aos movimentos de mudança de cada paciente cuidado, reconhecendo seus diferentes momentos. Trata-se de uma espécie de relação em que o cuidador permite-se preencher pela nostalgia de quem é cuidado, numa transição entre os modos de ser, pensar e fazer. É, principalmente, ter a possibilidade de exercitar as diferentes formas de amar numa dimensão para além do reducionismo de uma técnica que apenas esteja fundamentada na prática, mas tampouco deixar de considerá-la uma questão importante frente à atuação em psicologia e atenção em saúde física e mental. Já dizia Jung, psiquiatra e psicoterapeuta suíço, que por mais que se conheça todas as teorias e se domine todas as técnicas, ao tocar uma alma humana, é preciso ser essencialmente outra alma humana. Cuidar se refere ao acolhimento que possibilita o vínculo seguro, semelhante a um abraço capaz de unir todos os fragmentos. E, embora a dor não seja passível de ser sentida em sua integridade, pode ser transformada em cura, com o tempo, quando da possibilidade de ser reconhecida, expressa e compartilhada num trabalho conjunto entre psicólogo x paciente. 

Por tantas razões cabe ao psicólogo, enquanto cuidador, estender a sua mão. Todavia, a mesma mão que é estendida e acalenta também pode ser a mão que solicita ajuda e se distende para buscá-la. Convém, àquele que cuida, “tirar os seus sapatos” para permitir-se sentir a diversidade de densidades e levezas frente ao extraordinário desafio de ser humano; e “tornar a calçá-los” depois de se deixar mergulhar em tamanha profundeza. Assim, segue-se todo o aprendizado de uma equipe que é construída durante o processo de uma psicoterapia (o cuidador psicólogo e a pessoa cuidada) e cujo conhecimento é possível frente a cada encontro, numa experiência que nunca se finda em sua mais nobre riqueza.

Consulte um psicólogo e permita-se conhecer-se melhor nas suas dificuldades e potencialidades. Para cuidar bem do outro, antes é preciso cuidar bem de si mesmo. Trata-se de integridade. Que o cuidar seja por inteiro, com aconchego de verdade. Cuidar é, sobretudo, uma proposta de amor... consigo e com o outro!

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