quarta-feira, 25 de novembro de 2015

O luto pela passagem do tempo

A morte é um fenômeno universal e constitui elemento integrante do desenvolvimento humano desde a sua mais tenra idade. Ao refletir a respeito da sua existência, o homem não pode mascarar, quanto menos omitir a transitoriedade da vida como etapa constituinte do ciclo vital. Durante este percurso, ele se depara com questões que são constantemente reformuladas a respeito da contingência da vida, seu início e fim e o transcorrer da sua história. Esta circunstância faz com que o ser humano pense acerca do seu existir, bem como da fragilidade pela qual ele se compõe.

Para alguns, a morte é o fim de todas as coisas. Para outros, transformação. Há quem diga que a morte constitui uma passagem para outro plano da existência. Também há quem a ignore ou se resguarde das reflexões acerca deste evento. Frente a uma época em que reconhecer a finitude humana torna-se desafiador ao homem, diferentes concepções acabam sendo produzidas, pela sociedade, na tentativa de dar conta das angústias que, porventura, poderiam desconstruir a sensação de estabilidade e controle sobre a passagem do tempo.

O tempo, uma noção inerente ao ser humano – que o permite reconhecer e ordenar a ocorrência dos eventos diários de acordo com a percepção dos sentidos – torna-se uma questão semelhantemente angustiante quando pensado como percurso com início, meio e fim. O transcorrer de um ciclo implica no transitar de um conjunto de momentos que, embora necessários frente à consolidação de uma vida, impõe, a cada novo dia, a proximidade com questões relativas à finitude. Isto porque a trajetória do tempo está, sobretudo, associada às mudanças; e estas demandam uma série de “re”: readaptações, reajustes, reordenações, recomposições, reconciliações e, especialmente, recomeços. A passagem do tempo clama pela diferença, pela novidade; e o novo gera desconforto, porque implica metamorfoses que desacomodam.

É importante recordar que o luto não está apenas associado ao processo natural decorrente da morte propriamente, mas a todas as grandes perdas da vida que geram algum grau de estresse e desconforto – e aí pode-se pensar em afastamentos, perda das capacidades física ou psicológica, perda de um ambiente conhecido como cidade, estado ou país, perdas materiais ou que envolvem algum vínculo afetivo ou mesmo de algo que representa importância e que se deseja preservar, além das demais experiências que envolvem oscilações e requerem uma nova organização interna e externa do indivíduo.

O ser humano vive permeado por lutos desde o início da vida. Afinal, o bebê, logo de seu nascimento, necessita perder o quentinho e protetor útero de sua mãe para poder se desenvolver, ampliar-se e apreender o mundo a sua volta. Concomitante a este evento, num processo necessário, a mãe também se desprende de parte de si mesma – o bebê – para poder cuidar de um ser diferente num espaço também separado. E este bebê que, desde o início, precisa se ajustar a um novo e desconhecido ambiente, estará continuamente adaptando-se e reconstruindo modos de ser e fazer para enquadrar-se no ciclo das aprendizagens; da conquista de novos esquemas e espaços a partir de um crescimento e amadurecimento constantes; das mudanças físicas e psíquicas; da busca por novos ideais, planos e, eventualmente, frustrações; novos estilos, sabores, cores e amores. Estar aberto para as novidades do mundo também significa arriscar-se às perdas decorrentes do que se tem que mudar. Afinal, nem tudo serve para sempre; e isto não se trata de inutilidade, mas de necessidades que vão sendo modificadas ao longo do existir.

Experimentar sentimentos ligados a uma perda, decorrentes das metamorfoses da vida, também constitui parte natural e esperada de um processo de transformação e sabedoria que todo mundo percorre. Superar as mudanças requer antes atravessá-las e, para atravessá-las, é preciso estar ciente das perdas necessárias.

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