quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Finados: A dimensão de tempo e espaço no elo contínuo do amor

Diferentes formas de recordar as pessoas amadas que partiram têm servido como recurso importante para a elaboração do complexo processo do luto. Trata-se também do dia de Finados. Por meio da composição de metáforas, simbologias e ações de forma dramática e altamente condensada, os rituais podem transcender o sofrimento perpetuado pela finitude do ser humano, possibilitando a consolidação de uma aliança entre passado e futuro. Tais práticas assinalam a perda de um membro; autenticam a existência humana daquele que partiu, assim como o seu processo de viver; favorecem as expressões de sofrimento de forma conveniente aos valores da cultura; proferem simbolicamente sobre o sentido da morte e da vida e designam um caminho capaz de conferir ressignificação à perda, ao mesmo tempo em que possibilitam a continuidade para os que permanecem em vida.

As regras e rituais a respeito do marco final da vida humana e do comportamento dos enlutados frente à perda fazem-se presentes em todas as sociedades, mesmo nas mais primitivas. Datas utilizadas para lembrar das pessoas falecidas e prestar-lhes homenagens denotam o não-abandono dos entes queridos pelos vivos e implicam na crença da sua sobrevivência num elo de ligação que nunca morre na ausência. Momentos cultivados para tais fins são importantes, pois asseguram a expressão das emoções no que tange à manifestação do luto e permitem a demonstração inicial da dor e da perda em um contexto construído para promover conexão interpessoal. É possível pensar que há uma universalidade para atender a demanda psicológica e social de enquadrar e prever a perda, na medida em que o evento da morte envolve um grau significativo de sofrimento, por tratar-se do rompimento de um laço afetivo consolidado entre seres e que implica na reflexão das incertezas e inconstâncias da vida

A ritualização das perdas por meio de datas que recordam as pessoas amadas constitui um importante movimento de despedida familiar e social mas, sobretudo, de lembranças e expressão de saudade, na possibilidade de um período para a vivência do luto de forma segura, em razão de sua prática ser limitada quanto ao tempo e espaço, e do elo contínuo pelo amor que nunca tem fim. Os rituais de luto existem para estabelecer uma conexão significativa entre quem foi e quem está. Permanecem sendo vitais e autênticos aos indivíduos, à medida que estão inseridos em tradições passadas, mas podem ser recriados de acordo com as necessidades do presente. Logo, é possível, a cada um, construir e/ou repensar nas melhores formas de recordar, de modo que a dor seja ressignificada e que os novos sentidos tragam aconchego para a possibilidade de continuar a vida de forma segura e autônoma.

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