quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Aconselhamento psicológico em situações de luto

A abordagem utilizada no aconselhamento psicológico em situações de luto constitui um modelo de intervenção psicológica essencial no auxílio aos enlutados, pois facilita a passagem pelo processo de luto por meio manejo com as perdas. Visa o estabelecimento de condições de vida saudáveis ao enlutado, ao considerar seus próprios recursos e estratégias de enfrentamento da dor, além da retomada de sua rede de apoio familiar e social. Busca o reconhecimento da nova realidade para a readaptação da vida e conforto diante dos diferentes momentos do luto num período de tempo benéfico ao enlutado. Também assume caráter preventivo frente à possibilidade de complicações maiores advindas desta experiência. Trata-se, sobretudo, de amparar e impulsionar o enlutado para caminhos seguros, a fim de que seja possível reinvestir suas emoções na vida e no viver, mesmo na ausência da pessoa perdida.

Esta abordagem pode ser vislumbrada como uma ferramenta para intervenções tradicionais que podem não funcionar com algumas pessoas ou não estarem disponíveis para outras, dado que a psicologia constitui uma ampla área interventiva. O aconselhamento funciona como (1) reforçador para a concretização da perda, ou seja, a realidade da sua ocorrência; (2) um suporte ao enlutado no que se refere ao sofrimento emocional e às eventuais condutas provindas deste; (3) facilitador no atravessamento dos desafios impostos pelos reajustas pós-perda; e (4) promotor das reflexões do enlutado, a fim de que possam ser encontradas maneiras saudáveis de manter o vínculo com a pessoa querida e, ao mesmo tempo, sentir-se confortável para reinvestir no processo de viver.

Pode-se dizer que há três filosofias de aconselhamento frente às situações de luto. A primeira refere que esta modalidade de serviço pode ser oferecida a todos os que sofrem devido às perdas por morte, em razão de ser um evento traumático aos envolvidos. A segunda diz respeito à necessidade de ajuda por parte dos enlutados após o surgimento de dificuldades maiores. Em outras palavras, a busca pelo aconselhamento psicológico acontece, geralmente, após um longo período de estresse que se torna irreversível ao enlutado. A terceira filosofia está ancorada num modelo preventivo de saúde mental. Neste sentido, o profissional pode atuar de forma a prevenir precocemente eventuais adaptações precárias à perda e dificuldades posteriores. Para além de lutos e perdas, é importante procurar auxílio sempre que as circunstâncias da vida impõem mudanças que, de algum modo, desestabilizam a sensação de controle e descontroem as seguranças estabelecidas, ocasionando algum grau de desconforto ou angústia.

Diante da perda sofrida, o enlutado precisa de um suporte que lhe possibilite falar sobre o seu pesar e a experiência vivenciada pela morte da pessoa amada, sobre como foi o funeral, as lembranças deste evento e as memórias em vida. O profissional que acolhe esta demanda deve ser continente e permitir que o enlutado sinta que suas expressões de dor estejam sendo escutadas e aceitas. Além disso, a pessoa que busca por atendimento psicológico frente a estes desafios precisa saber que algum grau de culpa e raiva se fazem naturalmente presentes, e que há a possibilidade de ser conversado sobre isso com tranquilidade. Do mesmo modo, é importante experimentar-se diante do primeiro aniversário de morte com acompanhamento; reconhecer, compreender e atender suas necessidades diante da disponibilidade do profissional. O aconselhamento psicológico difere de um “conselho” quando pensado no senso comum, pois está livre de julgamentos relacionados à experiência individual, mas são trabalhadas questões particulares por meio de uma compreensão e ressignificação da dor. Ao profissional, cabe permitir que o enlutado finalize o processo de luto por meio da readaptação do mundo presumido, da apropriação de novos papeis com uma identidade diferente da anterior e que lhe seja possível ter quaisquer pontos de conexão com a vida.

O aconselhamento psicológico em situações de luto é fundamental no que tange ao asseguramento de novos caminhos para que o enlutado possa fechar questões que, eventualmente, ficaram inacabadas com a pessoa amada e finalmente se sinta preparado para dizer adeus à dor e dar boas vindas à saudade e às lembranças. Assim também, que possa aumentar sua percepção quanto à nova realidade e, a partir daí, potencializar capacidades de enfrentamento do seu luto, possibilitando a expressão e administração das emoções e afetos. Por meio de uma nova organização frente à perda, o enlutado pode construir maneiras de ajustar-se às diferentes etapas da vida, atravessando os obstáculos impostos; bem como estimular e autorizar a si mesmo a sentir-se confortável para tornar a reinvestir no viver e em relacionamentos posteriores.

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