quarta-feira, 25 de novembro de 2015

A saudade, no luto, é o amor que permanece

Embora os assuntos ligados à morte e ao processo de luto daqueles que sofrem por uma perda ainda sejam vistos como tabu – talvez por tratar-se de uma experiência-limite a qual gera desconforto e profundos sentimentos de angústia e pesar – a questão da finitude acompanha o ser humano desde o primórdio dos tempos. Morre-se um pouco a cada dia logo da oportunidade de nascer. Assim como há vivências de luto provindas de perdas por morte ou mesmo frente à necessidade de mudanças. A morte constitui parte integrante e essencial da vida, a partir dos ideais x frustrações; do planejamento x imprevisibilidade; do imaginário x real; de tudo aquilo que, um dia, foi construído, em contraposição ao que foi devastado; dos encontros e despedidas de cada história.

Em quaisquer situações, é possível dizer que não há nada mais doloroso para a alma humana do que perder alguém amado ou alguma coisa que se deseja preservar. A experiência da perda é potencialmente danosa para quem a vivencia, pois as adversidades relacionadas aos desligamentos do ciclo vital influenciam diretamente na saúde física e mental. Quando da perda por morte, por exemplo, finda-se, sobretudo, a possibilidade de um futuro junto à pessoa que partiu – futuro este recheado de expectativas, oportunidades, caminhos, alegrias e realizações. É natural, portanto, que o enlutado se sinta perdido ou com a sensação de “falta” – a impressão demarcada pelo “vazio” da experiência. A morte de quem é estimado chega carregada de sentimentos de confusão e estranheza, intercalados ao entorpecimento, à tristeza, raiva, às dores (que, às vezes, acabam se tornando físicas), ao alívio, à culpa, revolta, desesperança e, sobretudo, vem permeada por questionamentos.

O sofrimento existente no processo de luto é genuíno e esperado em virtude de tratar-se de uma relação de amor em que houve investimento afetivo de ambas as partes ao longo da vida. Apenas há dor na ausência, porque houve amor na presença. É importante recordar, porém, que o amor também reside no descanso desta dor e na “recarga” de energias para a possibilidade de reinvestir na vida. Amar também significa repouso para cicatrizar as feridas da alma. O afeto mora nas lembranças, nos momentos felizes, em tudo aquilo que a pessoa querida representou enquanto em vida e, sobretudo, na vontade que ficou, chamada saudade. A saudade, no luto, é o amor que permanece. Logo, contrapor-se à realidade da morte na tentativa de viver como se mudanças não fossem necessárias, “esquecer-se” do ente querido ou livrar-se subitamente de tudo o que lhe pertenceu, isolar-se ou evitar conversar sobre os sentimentos e expressar emoções, manter o tema da morte sob segredo, muitas vezes, tornam-se fatores que impedem a resolução do luto num processo saudável de elaboração.

Embora a ausência da pessoa amada, em vida, seja razão de tamanha dor por parte de quem fica, a morte é peça integrante e essencial do teatro da existência. Diante de uma experiência de perda, é preciso ajustar-se às mudanças, encontrando novas formas de “conectar-se” com aquele que partiu. Esta espécie de conexão pode surgir por meio de maneiras que o próprio enlutado encontra, ao longo do tempo, para lidar com a dor do luto e que ofereçam conforto e segurança para dar continuidade e sentido à vida. Enquanto as tentativas de “distanciar-se” do falecido acabam, muitas vezes, intensificando a dor e o pesar por não constituírem parte do processo natural do luto, permitir-se aproximar-se das emoções e reconhecer as metamorfoses da vida possibilita novas formas de reconstrução. A saudade que, no início, faz doer é a saudade que, ao longo do tempo, transforma-se em um ponto de ligação com a vida, pois fala do amor que nunca morre, mas que se transforma numa aprendizagem eterna frente à nova necessidade de amar em separado.

Enquanto a dor e o sofrimento estão associados à ausência, as lembranças tornam-se possibilidades de unir-se à pessoa querida por meio de um amor que se modifica, ao longo do tempo, numa nova forma de cuidado. Neste contexto, cabe dizer que na medida em que o enlutado permite a si mesmo viver momentos de vitalidade e entusiasmo, mesmo intercalados por períodos de tristeza, este também estende o seu cuidado à pessoa ausente em vida, justamente por se tratar de uma ternura e um bem-querer que permanecem vivos nas chamas da lembrança, saudade e esperança.


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