segunda-feira, 24 de junho de 2013

Silêncio!

E quem poderá afirmar que cuidar de alguém significa sempre ter algo a dizer?
O silêncio também fala.
O silêncio pode confortar.
No silêncio cabem várias formas de expressão, várias formas de entender, vários modos de auxiliar.
O silêncio carrega a compaixão.
Comporta tanto consigo... comporta o amor!
E cuidar de alguém, às vezes, significa permanecer junto... em silêncio!


domingo, 16 de junho de 2013

Mas você não sabe o bem que me faz!

E pensar que num domingo fui tomar um café. Encontrei um amor... ambos quentes. Palavras incessantes. Escuta compreensiva. Silêncio. O toque das mãos. Tentativas. E findou-se aquele dia. Continuaram-se os dias... e as semanas. Agora faz quase três meses. E você não sabe o bem que tem me feito. Você não sabe o bem que me faz.

Você vai embora, mas diz que vai voltar. Enquanto isso, eu morro de saudade. Mas de saudade não se morre, não. De saudade a gente vive. Assim como não se morre de amor, uma vez que se vive por ele. Você realmente volta. E eu fico contando as horas para vê-lo. Você também conta as horas... para me buscar.

Ao me abraçar, você me derruba e a gente cai por cima do sofá, rolando pelo chão da sala de estar. Eu fico brava, porque sua mãe pode aparecer e nos pegar em meio a toda bagunça. Mas, na verdade, eu adoro a situação por inteiro.

Você viaja novamente, como se já não fosse pouco, só para me encontrar. Tomamos um café acompanhado a um pedaço de bolo. É sempre assim: café e bolo. Para mim, inédito. E, então, você rouba pedaços do meu, sendo que o seu é igualzinho. E nem, ao menos, consigo me exaltar, pois faria exatamente o mesmo com você.

E você risca meu caderno de estudos, mas compensa a peraltice fazendo pombinhas de origami e aviões de papel a meu pedido. Eu guardo tudo num lugar ocupado somente por você. Como me admiro com o seu jeito menino que esconde um segredo: uma fantasia por baixo da roupa.

Eu passo batom, lápis de olho e pó compacto... tentando parecer uma boneca de porcelana. Você assopra em meu rosto, falando sobre a beleza contida na minha simplicidade. Como me encanto com as suas palavras. E com o seu silêncio também. Porque, às vezes, somente os nossos olhos se comunicam. E os nossos corações entendem exatamente aquilo que gostaríamos de dizer.

Quando a carência bate à sua porta, você sente ciúmes do meu passado. E eu tento dizer o quanto você é diferente daqueles que, de um modo ou de outro, passaram. E quando eu quero saber sobre o seu passado, você reluta, argumentando sobre o quanto é irrelevante diante do nosso presente. A gente sabe que a insegurança existe e que o medo faz parte. Mas alguém deve ser o equilíbrio. Às vezes, é preciso aprender a conversar com os monstros que habitam os porões da nossa alma e até oferecer-lhes chá, se necessário.

Mas nos falamos todo o dia, todos os dias. E mesmo que eu pense não ser suficientemente boa para fazer você ficar, você me diz que sou suficientemente forte para fazê-lo voltar. E então eu choro. E você me abraça com a alma e com o coração. Um aconchego transcendente de carinhos e gratidão. Eu abro a janela todas as noites para receber os anjos que você me envia antes de irmos dormir. E mesmo de longe, posso sentir suas carícias através da leve brisa que chega a me tocar.

E você não sabe o bem que me faz.

E hoje... eu estou aqui. Você está aí. Mas nós estamos. E eu acredito nunca ter permanecido tão próxima a alguém que se encontra tão longe. Por maior que seja a distância, há uma segurança nisso tudo, que parece que ninguém nunca fora capaz de transmitir. É tão pouco tempo. E tantos são os planos. Tantas coisas para viver. Tanta vida para compartilhar.

E quanto a você... você encontrou alguém que pegou firmemente na sua mão. Assim como eu encontrei alguém disposto a segurar intensamente a minha. Nunca estaremos um passo à frente do outro. Estando de mãos dadas, caminharmos lado a lado já é o suficiente. Aliás, caminharmos pra quê, se eu tenho junto de mim um homem de capa? Hora de mostrar a fantasia que está por baixo da roupa, super-heroi! É tempo de voar!

Mas você não sabe o bem que me faz. E toda a vez que penso numa história com final feliz, lembro que não há fim... apenas o começo. O nosso começo.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

O contrário do amor*

O contrário de bonito é feio, de rico é pobre, de preto é branco, isso se aprende antes de entrar na escola. Se você fizer uma enquete entre as crianças, ouvirá também que o contrário do amor é o ódio. Elas estão erradas. Faça uma enquete entre adultos e descubra a resposta certa: o contrário do amor não é o ódio, é a indiferença.
O que seria preferível, que a pessoa que você ama passasse a lhe odiar, ou que lhe fosse totalmente indiferente? Que perdesse o sono imaginando maneiras de fazer você se dar mal ou que dormisse feito um anjo a noite inteira, esquecido por completo da sua existência? O ódio é também uma maneira de se estar com alguém. Já a indiferença não aceita declarações ou reclamações: seu nome não consta mais do cadastro.

Para odiar alguém, precisamos reconhecer que esse alguém existe e que nos provoca sensações, por piores que sejam. Para odiar alguém, precisamos de um coração, ainda que frio, e raciocínio, ainda que doente. Para odiar alguém gastamos energia, neurônios e tempo. Odiar nos dá fios brancos no cabelo, rugas pela face e angústia no peito. Para odiar, necessitamos do objeto do ódio, necessitamos dele nem que seja para dedicar-lhe nosso rancor, nossa ira, nossa pouca sabedoria para entendê-lo e pouco humor para aturá-lo. O ódio, se tivesse uma cor, seria vermelho, tal qual a cor do amor.
Já para sermos indiferentes a alguém, precisamos do quê? De coisa alguma. A pessoa em questão pode saltar de bung-jump, assistir aula de fraque, ganhar um Oscar ou uma prisão perpétua, estamos nem aí. Não julgamos seus atos, não observamos seus modos, não testemunhamos sua existência. Ela não nos exige olhos, boca, coração, cérebro: nosso corpo ignora sua presença, e muito menos se dá conta de sua ausência. Não temos o número do telefone das pessoas para quem não ligamos. A indiferença, se tivesse uma cor, seria cor da água, cor do ar, cor de nada.
Uma criança nunca experimentou essa sensação: ou ela é muito amada, ou criticada pelo que apronta. Uma criança está sempre em uma das pontas da gangorra, adoração ou queixas, mas nunca é ignorada. Só bem mais tarde, quando necessitar de uma atenção que não seja materna ou paterna, é que descobrirá que o amor e o ódio habitam o mesmo universo, enquanto que a indiferença é um exílio no deserto.

*Martha Medeiros.

domingo, 9 de junho de 2013

Criança: a alma do negócio*

*Texto elaborado para a disciplina de Intervenção Clínica na Infância e na Adolescência, com base no documentário "Criança a alma do negócio", disponível em http://www.youtube.com/watch?v=49UXEog2fI8

Atualmente, vive-se em um mundo de transformações, na chamada “era da ansiedade”. Neste sentido, pode-se afirmar que as crianças de hoje não possuem mais uma infância como a de tempos remotos, considerando que os pais, por sua vez, também não encontram mais tempo, em suas vidas atribuladas, para orientar e proteger seus filhos. Deste modo, faz-se a tentativa de suprir essa falha de vínculo e integração com os filhos de maneira a afrouxar a sua educação, deixando que a liberdade e a permissividade façam-se presentes de forma excessiva. Logo, o amadurecimento precoce dos jovens vem contribuindo significativamente para o caos da família moderna e da sociedade, como um todo (Almeida & Nickel, 2010/2011).
A mídia tem cumprido importante papel no que diz respeito ao desenvolvimento do ser humano e seus modos de subjetivação e tem-se mostrado bastante presente no que tange à influência causada aos aspectos do ser e ter da sociedade. Não se pode negar que as crianças, desde muito cedo, acabam sendo os seres mais afetados por estes recursos, diante da diversidade de estímulos que são oferecidos diariamente, logo, tornando-as consumidoras precoces, por exemplo. Considerando que as crianças encontram-se incapacitadas para a tomada de determinadas decisões e que, sendo assim, apresentam-se diante da sociedade como alguém de maior vulnerabilidade, a publicidade passou a utilizá-las como um alvo certeiro para a venda dos produtos no mercado consumidor de forma exorbitante.
A infância, carregada de leveza e inocência em sua essência, como era vista em tempos remotos por meio do brincar, por exemplo, passou a dar espaço para o consumismo dos recursos industrializados, apenas. Observa-se que as crianças, atualmente, são vistas como um mini-adulto, enquanto também sentem gosto por se comportarem como tal, menosprezando a arte do brincar, tomando-a como algo desnecessário, mas atribuindo importância ao consumir semelhantemente a um adulto. À mídia, por sua vez, pode ser atribuída a responsabilidade pelo fato da criança querer sentir-se um adulto – desconsiderando a falta de maturidade e progresso cognitivo envolvidos em cada etapa do desenvolvimento transgredida por meio da influencia exercida pelo social.
O consumismo infantil tem se tornado perceptível às famílias, à medida que os filhos dirigem-se aos seus pais, alertando-os sobre o “seu” desejo pelas roupas e sapatos das marcas X ou Y – a marca dos vencedores – bem como quanto aos demais produtos comercializados. Acredita-se, contudo, que não há, aí, uma forma desejante própria da criança, mas um desejo que lhes fora imposto pela mídia – um desejo implantado – considerando que há vulnerabilidade por parte da criança para a tomada de determinadas decisões. Pode-se pensar que a publicidade, neste sentido, é capaz de enraizar o desejo às crianças, fazendo-as pensar que a obtenção dos mais variados produtos as torna singular, diferenciadas das demais enquanto construtoras das suas próprias identidades, mas ao mesmo tempo, pertencentes ao grupo e reconhecidas perante a sociedade também consumista. A prática consumista das crianças, neste sentido, mais parece estar ligada à uma espécie de passaporte para a entrada nos grupos como uma condição de pertencimento.
Os familiares e, mais especificamente os responsável por essas crianças podem reforçar essas práticas consumistas, à medida que, diante das inúmeras responsabilidades que lhes compete, acabam tornando-se, muitas vezes, figuras parentais ausentes à criança. Logo, compensam a sua falta através da aquisição dos produtos vendidos no mercado e, consequentemente, reforçam o desejo desenfreado da criança na obtenção de novos produtos. Sem contar que a mídia pode servir, neste sentido, como a precursora do desenvolvimento da subjetivação da criança, já que a publicidade conversa com esta todos os dias, enquanto que os pais ausentes conversam só quando disponíveis. A família vem, a cada dia, perdendo seus principais valores – respeito, educação e disciplina. Não se pode negar que é em função do relacionamento entre pais e filhos encontrar-se cada vez mais pobre e carente de afeto, carinho, diálogo e principalmente amor, que acaba implicando numa porta aberta para as inúmeras armadilhas do mundo externo (Almeida & Nickel, 2010/2011).
A eventual incapacidade dos pais para promover limitações aos seus filhos e instituir a autoridade que lhes cabe também pode ser caracterizada como um agente facilitador para o aumento do consumo das crianças, à medida que estas últimas se desenvolvem psiquicamente e apreendem a realidade do mundo através do contato com as frustrações e com as limitações que lhes são impostas e que, neste caso, podem não existir, por conta da dificuldade envolta aos pais ao dizerem a palavra “não” e, consequentemente, presentearem quase que diariamente as crianças com os produtos que elas mesmas solicitam, não necessariamente por necessidade. Conforme Phillips (2000), torna-se importante e também necessário que os pais exercitem a sua capacidade de impor limitações aos seus filhos, exercendo a autoridade ao comunicar por meio da palavra “não”. Esta capacidade é vista como promotora tanto do crescimento quanto do desenvolvimento de todo o meio familiar, à medida que se constitui como um amor exigente.
Um aspecto que deve ser levado em conta como um fator preocupante, considerando um desenvolvimento físico e psíquico saudáveis, atualmente, diz respeito à maior dificuldade de diferenciação entre o que é real e o que é ilusório. Além de parecer não haver desejo próprio nas crianças, mas um desejo a elas introduzido, também parece haver maiores dificuldades no que tange ao reconhecimento de conteúdos pertencentes à realidade. As crianças, atualmente, encontram-se aptas a diferenciar marcas de produtos industrializados apenas pela logomarca apresentada, contudo, não sabem nomear frutas ou verduras, por exemplo, objetos estes pertencentes à realidade da sociedade.
Outro ponto a que se deve ressaltar segue em direção à atribuição dos papeis sociais que acabam sendo apresentados e instituídos para as crianças, por vezes, de forma inadequada, através dos recursos midiáticos – expondo, desde cedo, uma imagem sexualizada das funções de ser mulher e ser homem. Um exemplo disso são os comerciais de cerveja, que colocam à mostra mulheres com corpos malhados e seminus diante de homens que as veneram. As crianças, desde muito cedo, passam, então, a construir uma imagem, muitas vezes inadequada, daquilo que devem transmitir à sociedade.
Logo, considera-se que a publicidade, de forma geral, ao objetivar sensibilizar as crianças por meio das mais diferenciadas formas de propagandas sobre roupas, calçados, brinquedos, comidas e afins, acaba reforçando o sentimento de onipotência infantil, à medida que institui que o fato de possuir o melhor também a faz ser melhor, permanecendo sempre como um ser em comparação aos demais, num ambiente de competição intensa; isto, por sua vez, pode ser considerado um modelo perverso do qual a publicidade se utiliza, a fim de obter êxito em suas ações, já que cria, inevitavelmente, uma relação de dependência entre sociedade x meios de consumo, a fim de que se possa garantir o sentimento de pertença nos grupos.


Referências bibliográficas:

Almeida, E. C. S. & Nickel, D. C. (2010/2011). Saúde mental, trabalho e desenvolvimento organizacional. Programa de apoio à Iniciação Científica. PAIC.

Philips, A. (2000). Dizer não: impor limites é importante para você e seu filho. Rio de Janeiro: Editora Campus.