domingo, 31 de março de 2013

E disseram os Deuses... “Vida e Morte poderiam trabalhar juntos”... e riram...*


*Texto produzido por Ana Paula Reis da Costa (1999). Alguém inquestionavelmente admirável e especial em minha vida... que muito me ensinou sobre o percurso do viver e do morrer, por meio das palavras que acolhem e regeneram a alma.


Os Deuses eram como supervisores acadêmicos, reclusos no Olimpo, em tempo e espaço bem definidos, não sentiam muito além. Bem, eram Deuses, afinal. O universo naquelas épocas era algo passivo, estruturado, uniforme e completamente sob controle, organizado e tranquilo, como toda coisa estática é. E do Olimpo os Deuses acompanhavam tudo, obviamente sem sair de seus lugares, cheios de si, sábios, tão superestimados por si mesmos, curiosos... desejavam divertir-se e realizaram o desafio de colocar a Morte para conviver com Vida.
Morte tão onipotente e sombria, sorriu ironicamente. Perversa, pensava que certamente acabaria com a alegria de Vida em pouco tempo, provaria que tudo é falível e frágil. Poderia dar limites, soberana a qualquer coisa que se apresentasse a sua frente, já que ela mesma representava o próprio limite de tudo. Morte era como a Lua, cercada de escuridão, solitária e fria.
Vida topou o desafio, divertiu-se com a onipotência da Morte em silêncio e pensava desdenhosa no quanto a Morte era vazia. Vida era essencialmente criativa e simples, quase genial. Nada esperava da Morte a não ser a finitude e não tinha receio, sempre fora corajosa e conhecia bem seus limites.
Quente e acolhedora como o Sol, Vida apresentou-se educadamente à palidez da Morte.
E ambos iniciaram seu convívio...
Para espanto dos Deuses, o casal não discordava, vistos de cima, Vida e Morte juntos compunham um quadro pitoresco, uma parceria sem nome. Em ações podia-se perceber que a Morte tentava engolir Vida, mas Vida revertia estes investimentos em autodefesas para benefício próprio e seguia prosperando.
Morte, traidora e dissimulada, egocêntrica e perspicaz, pensou num plano, testaria Vida em sua fragilidade mais íntima... naquilo a que os Deuses chamariam de “Calcanhar de Aquiles” de Vida: o amor.
Morte sedutora e bela em toda sua obscuridade, mistério e força, mostrava-se feliz por estar com Vida, até a elogiava... usava de todos os seus perfumes e encantos, fazia as noites parecerem belas, sorria bem humorada, ondulava seus cabelos negros ao vento e deixava a mostra suas curvas e entorpecimentos... plena de sortilégios ocultos.
Mas para conquistar Vida, a Morte teve que se aproximar, e num primeiro momento se satisfez ao perceber que estava quase atingindo seu objetivo. Vida começava a interessar-se por ela. No entanto, com o passar dos dias e das noites, Morte começou a senti-se perturbada e confusa, pois não estava mais gostando da solidão. Sua cor de pálida foi a dourado, já que havia-se permitido aproximar-se do Sol. Aprendeu a gostar do calor e precisava encontrar um modo de matar Vida, antes que Vida tomasse conta dela. Sentiu sua onipotência reduzir-se aos poucos, então decidiu, para não fragilizar-se mais, realizar o ato de engolir Vida.
A Morte chamou Vida, e desejosa, cheia de volúpia, foi enroscando-se calma, vagarosa e deliciosamente pela extensão da Vida como uma serpente. Vida inebriada, não resistindo a tanto encantamento, penetrou a Morte com toda sua delicadeza e vigor. Morte sentiu-se invadida de luz e pela primeira vez foi tomada de um prazer diferente que lembrava-lhe... a continuidade.
Agora tendo experimentado Vida, Morte afastou-se assustada e muda. Descobriu que não podia mais ver-se sem amor, sem toque, sem luz e calor. Ela havia compreendido o significado de duas pequenas palavras: amor e respeito. Desesperada, Morte pensou ter matado a si mesma...
Os Deuses contam que depois disto, Vida andava irritada e insatisfeita, notaram que sua luz, houve um tempo, chegou a brilhar menos. Queria estar com Morte... Vida compreendeu o significado da dor, da falta e da saudade, não conseguia mais desapegar-se de Morte...
E o laço entre ambos solidificou-se. Vida e Morte não podiam mais lutar contra si mesmos. Afastados eram meios, porém juntos representavam a coisa mais caótica, ambígua, paradoxal e dinâmica que o universo jamais conheceu... a plenitude. O tempo tornou-se eterno e o espaço infinito.
Os Deuses, tomados de admiração e pavor, viram nascer daquela união uma criatura medonha, que tomaria conta de tudo, acabando por excluí-los completamente do universo.
Uma criatura frágil e forte, pequena externamente, porém grande internamente, organizada, mas relativamente desorganizada por vezes, repleta de bem e de mal. Sem duvida, alguém que tinha mortalidade, no entanto, com a capacidade de tornar-se tanto mais imortal, quando mais fosse amado. A criatura era a essência do tudo e do nada... ambivalente, podia administrar com ou sem dificuldade qualquer situação. A cada segundo formava e transformava o universo, que prosperava, regredia, evoluía, avançando no futuro muito além do que se poderia planejar.
Sem controle, o caos instaurou-se, e a criatura vivenciava-o de modo flexível e natural, administrando tudo. Movida por sentimentos e pensamentos, deixava no passado o que a ele pertencia, ou fazia deste, sabedoria à estruturar o presente e o futuro. Ora apegada, ora desprendida. Uma criatura com tamanha fé que poderia, inclusive, superar a si mesma, de outro modo, tão humilde que esperava contar com os outros...
Os Deuses, submersos na desolação e insegurança, pois eram unos, imparciais, não sabiam lidar com paradoxos, antes de partir, solicitaram um último pedido: “Que batizem a criatura!”
Vida discordou, disse que seu filho era sentimento, não deveria carregar sequer uma palavra. Morte concordou com os Deuses, usando a razão, disse que seu filho precisava de uma identidade.
Discutiam fervorosamente... Vida, em nome do amor que sentia por sua esposa Morte, sugeriu Humanidade. Morte suplicava por Existência. E a criatura inquieta, surpreendendo a todos sussurrou: “Quero me chamar Homem”.
E por Homem a criatura foi batizada, pelo Sol e por Vida; pela Lua e pela Morte, com o consentimento dos Deuses, que abandonaram-se em fracasso, tomando a boa e velha decisão que tomavam sempre quando algo de novo poderia vir a acontecer: “Não devemos mais nos arriscar”.
Creiam todos que esta história foi redigida pela Morte, que ainda hoje sente a necessidade de dar palavras para a Vida. Vida aceitou, sabe que Morte neste exercício, reviu sua história aceitando sua essência; o recomeço e a possibilidade de reconstrução.
Assim o casal mantem-se unido...
Obviamente discutem, principalmente quando vida alega que Morte é parte dela. Morte fica brava e nega, mas em seu íntimo a ama, e sabe que Vida venceu.
É que Vida sempre foi fiel aos seus princípios e Morte é ciumenta...
Bem, determinadas coisas nunca mudam...
Vejam os Deuses, continuam lá no Olimpo, supervisionando a si mesmos...

sexta-feira, 29 de março de 2013

Anjos e cães...

Alguém importante, chamado Lelloup, um dia, falou que, na nossa existência, deveríamos ser acompanhados por um cão e por um anjo. Algo complexo. Até que seja pensado e sentido com a alma e com o coração. E concordemos, como é difícil pensar com aquilo que nem sempre exercitamos.
A ferocidade do cão, assim como a sua braveza, por vezes, tornam-se necessárias para que a coragem instigue a ânsia pela busca do homem às coisas que almeja. A leveza do anjo, por sua vez, possibilita um entendimento superior sobre o viver. E o mais bonito disso tudo. Não há melhor ou pior nessa história. Tanto o cão quanto o anjo estão conectados por aquilo que, muitas vezes, os distancia. Isso sim é complexo. São seres integrados e, quando pensam em atuar sem a presença do outro, suas ações tornam-se, em sua incompletude, desguarnecidas.
O anjo, por vezes afoito, pode tornar-se impulsivo. E as consequências podem ser devastadoras. O cão, então, surge para acolher a energia propulsora presente e, com o seu senso de realidade, afaga os ânimos que muito fazem o anjo desvairar. Mas também é o anjo que acalenta e transmite a serenidade necessária ao cão quando este se encontra enraivecido e pronto para atacar. O cão é razão. O anjo vai muito além dela.
Nem sempre anjos e cães mantêm uma boa relação. Vez ou outra, o cão sente vontade de morder as asas do anjo. Vez ou outra, o anjo faz a tentativa de ignorar as necessidades do cão. Uma relação complexa, como qualquer outra. Mas profunda. E isso é bonito. Nos encontramos diante de um ser que precisa constantemente do outro. Por isso, cães e anjos andam junto. E não há, aí, uma relação de dependência, mas sim de integração e completude. O equilíbrio existencial só se faz presente se ambos estiverem trabalhando conjuntamente, constantemente, fielmente um ao outro.
Anjos e cães não podem ser vistos. São representações que encontram-se em nosso psiquismo. Alguns demoram muito tempo até encontrarem o anjo ou o cão que existem em si. Mas isso não significa dizer que nunca estiveram presentes. Talvez só tenham sido, algum dia, enjaulados, impossibilitados de sair dos porões mais obscuros comportados pela mente.
O mais interessante disso tudo é que a gente nunca sabe ao certo qual o ser que está atuando em quais situações, porque há a transversalidade de papeis, ou seja, suas funções se modificam, são dinâmicas. E por serem tão importantes na vida da gente, só podemos percebê-los senti-los ao nosso modo. Somente se for com a alma e com o coração.